Raízes nas Minas Gerais – XVII

As terras são a paixão de seus donos, que vivem delas, se entregam de corpo e alma, morrem e até mesmo matam por elas.  Acima de tudo, as terras.

A mãe tinha toda razão: os irmãos ficaram nas terras, mas separaram seus negócios.

O visionário ficou com as terras perto do rio e plantou muito cafezal, investiu dinheiro em “novidades” totalmente desnecessárias, e deixou sua mulher e seus muitos filhos gastarem a rodo. Ficaram todos mal acostumados…

O ambicioso comprou mais gado estrangeiro, investiu na Bolsa, ajudou a mãe visando o seu próprio interesse…

O teimoso fez tudo ao contrário do que foi sugerido, e continuou agindo como se nada houvesse mudado, tocando as caieiras sem acompanhar o progresso que ocorria na região.

Deu no que o tempo mostrou….

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Raízes nas Minas Gerais – XVI

O sol estava a pino quando ela saiu com os filhos para ir à cidade. Ia passando pelas terras e pensando como seriam as coisas dalí por diante. As terras, que antes eram de todos, teriam que ser divididas.

A parte dela, como meeira, ela queria conservar. Não iria vender, seus filhos teriam que tocar o negócio pela mãe, era sua obrigação. A parte deles, fariam o que quisessem com ela, nada os impediria. Sabia que muita coisa errada aconteceria, mas, fazer o que? Conhecia a impetuosidade e o genio difícil dos seus filhos. Um era visionário, outro muito ambicioso, o terceiro era teimoso como uma mula…

E as mulheres deles? Não tinham voz ativa, e parecia que viviam em outro mundo!

Oh, meu Deus, o que será desta familia?! pensava ela, enquanto a carroça percorria as terras, ladeando os cafezais, passando pelos pastos e  pelas caieiras.  De longe se ouvia o apito do trem. Suspirou.

 

 

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Raízes nas Minas Gerais – XV

Quando o pai ficou muito doente, a mãe não ficou preocupada com as finanças da familia: a vegetação e as caieiras indicavam o bom uso daquelas terras, o gado só aumentava,  a plantação de café estava a perder de vista. Ela ficou preocupada, e muito, com o curso que os negócios iriam tomar nas mãos dos filhos do casal. Eles eram muito diferentes entre si, e sem as rédeas do pai para conduzir a marcha deles, poderiam perder o rumo …. Por mais que ela conseguisse influenciá-los, eles teriam sempre o direito e a liberdade de decidir por si mesmos. E ela sabia, na verdade ela tinha certeza que cada um iria querer tocar os negócios de um jeito. E isso não iria dar certo, mas não iria mesmo!

E dito e feito! Quando o pai se foi, após o período inicial do luto e da falta de norteio, os três filhos começaram a discutir e a se desentender sobre os negócios.A mãe tentara unificar as opiniões e resolver o inventário de forma pacífica. A partilha não fora justa, pois as filhas não herdaram nada do pai. A mãe ficara meira com os três homens. Ela era muito autoritária e até  conseguia ter um certo controle da situação, mas, quando se trata de dinheiro e de direito adquirido, prevalece o interesse de cada um.

A gameleira é uma só, mas seus galhos são muitos. Uns mais grossos, outros mais fracos, uns apontam para o céu, outros pendem para o chão.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Raízes nas Minas Gerais – XIV

O vento derrubava as flores das paineiras e o chão ficava lindo. Ela gostava de esperar por ele sentada debaixo da árvore, olhando a estrada e esperando ouvir o galope do seu cavalo.

Logo que ele chegava ela já se levantava para subir na garupa . Em silêncio, sentindo o vento no rosto, se colava nele. Iam para a casinha perto do riacho e, como sempre, tinham mais uma vez, a posse do corpo um do outro. Intensa e sem palavras. Completa e sem paixão. Ela era a mulher que ele trouxera e  não assumira. Ele era o homem que ela escolhera e não  conquistara.

Ele e ela tinham seu par e seus filhos. A familia seguia como devia. E a vida, como seguiria?

Ele não se fazia este tipo de pergunta. Mas ela, sim! E por isso mesmo, dentro da total falta de planos em conjunto, ela tramou o seu.  E não iria demorar muito para ele ser posto em prática. Era só uma questão de tempo….

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Raízes nas Minas Gerais – XIII

As terras se alargavam desde as caieiras até as margens do Rio Grande. A Estrada de Ferro trouxera progresso e novos moradores, que trabalhavam nas caieiras.

A familia do casal seguia próspera e aumentada pelos netos que iam nascendo.  Os três filhos tinham suas casas dentro dos limites das terras. As filhas foram se casando e indo morar em outras paragens.

A filha que ficara por ali, morava na  maior cidade da região. O marido era um abastado comerciante. Quando um irmão fazendeiro ia à cidade com a familia, se hospedavam com eles. Era muita gente, as crianças dormiam amontoadas e felizes pela proximidade dos primos…. E o comerciante nunca fez conta da longa estadia dos hóspedes; contanto que sua mulher ficasse satisfeita , estava tudo bem! Na verdade, as visitas que o aborreciam eram a dos padres, por uma simples razão: sua mulher era muito beata e vivia fazendo doações para a Igreja. E com isso os padres estavam sempre por ali, fazendo um lanche e arrecadando dinheiro para quermesses, reformas de altar, etc. Até parece que ela queria garantir a sua entrada no Céu, dizia o marido. Ele era mão aberta, mas também era maçon. Está explicado!

Os netos da cidade passavam as férias escolares na fazenda. O avós não eram muito de dar colo, mas os tios davam toda a atenção, ensinavam a andar a cavalo, a nadar, era uma alegria! As tias pareciam estar sempre muito ocupadas com seus afazeres, sem tempo para os sobrinhos. A tia estrangeira falava pouco com eles, e não era por sua fala enrolada, as crianças achavam que ela era esquisita, mesmo! Estava sempre de preto e saía pelos pastos, sumindo por horas seguidas.  Os únicos que perguntavam por ela eram seus filhos.

O que ela fazia nos pastos? Pergunte ao vento e à Mata da Vida…

 

 

 

 

 

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Raízes nas Minas Gerais – XII

O gado comprado nas terras longinquas chegou, e um novo rebanho foi gerado. Mas… não só de gado aquelas terras foram aumentadas.  Problemas familiares foram gerados. O casamento de um dos filhos viajantes, que já havia sido tratado com moça da terra, tinha que acontecer! E como resolver o problema com a estrangeira, que   dera um jeito de vir com o moço para as Minas Gerais e agora ali estava,  um rabicho que não podia ser descartado mas que, definitivamente, tinha que ser ocultado?

O pais deram um jeito no assunto, com a costumeira prepotência. E os filhos obedeceram, pois outra opção não havia. A prometida casou-se com o noivo que ela aguardara, e a estrangeira, muito a contragosto, casou-se com o outro irmão, pois ela já estava ali, desonrada, não podia ser mandada de volta depois do que havia acontecido!

Filho crescido dá mais trabalho que filho pequeno, principalmente homem frouxo que se enreda com rabo de saia, reclamou o pai.

A mãe, embora nada dissesse, via problemas pela frente. Ela sabia bem, por experiência própria, que não se mexe com os sentimentos de uma mulher e a coisa fica por isto mesmo.  É uma questão de esperar para ver…

 

 

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Raízes nas Minas Gerais – XI

As moças da familia viajavam para a Capital e conviviam com pessoas consideradas de bem. Tanto que duas delas conheceram rapazes com títulos de nobreza. Nobres falidos, a fortuna delas era muito maior do que as deles. Mas os moços tinham educação refinada, pose e pompa, e isto atraíu bastante a atenção das moçoilas casadouras.

Mais uma festa, os dois matrimônios sendo celebrados no mesmo dia, os quatro noivos recebendo todos os convidados das respectivas familias, uma movimentação enorme na fazenda. Muitos filhos e muitos anos depois, a derrocada dos dois casamentos. Os dois belos pilantras só faziam negócio errado, além de gastarem tudo que lhes caira nas mãos com a morte dos sogros.  Nunca se separaram das esposas, isso não se usava fazer!  Os maridos viviam na farra, tinham amantes, e as legitimas que ficassem em casa, cuidando dos filhos e se enchendo de amargor.

E a história dos donos daquelas terras vai seguindo seu curso, ao longo dos anos, ao longo do rio….

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